11 grandes aprendizados do ensino participativo remoto

11 grandes aprendizados do ensino participativo remoto

Não há dúvidas de que a situação da pandemia trouxe diversas inovações para o ensino. Em um curto espaço de tempo, aprendemos a usar plataformas e aplicativos variados para nos conectar e tornar a interação e o aprendizado mais fáceis.

Por: Clio Nudel Radomysler, Guilherme Forma Klafke, Marina Feferbaum


Já são quase dois anos desde que a rotina de ensino foi completamente transformada. Estudantes e docentes, todos(as) passamos, repentinamente, a nos encontrar em salas de aula online para dar seguimento aos cursos.

Não há dúvidas de que a situação da pandemia trouxe diversas inovações para o ensino. Em um curto espaço de tempo, aprendemos a usar plataformas e aplicativos variados para nos conectar e tornar a interação e o aprendizado mais fáceis. Contudo, para além de ferramentas tecnológicas, considerar o fator humano ainda é o maior desafio que tivemos durante esse período.  Como construir um programa de curso que seja significativo e engajante para nossos estudantes, levando em consideração o cansaço da tela, as desigualdades de acesso à internet, a falta de convívio presencial e o contexto atual de insegurança que afeta toda a comunidade acadêmica?

Mais do que se familiarizar com vários aplicativos e ter um arsenal de dinâmicas para o ambiente online, para nós, a diferença está na forma como entendemos o papel do professor(a) e do estudante, as relações que queremos promover em sala de aula e no que consideramos relevante na hora de realizar as nossas escolhas pedagógicas.  Enquanto docentes de ensino superior e pesquisadores(as) sobre metodologias ativas no Centro de Ensino e Pesquisa em Inovação (CEPI FGV Direito SP), elencamos os 11 maiores aprendizados que tivemos nesse período:

1. O ensino centrado nos(as) estudantes também no ambiente online

Sabemos que estudantes aprendem melhor quando participam ativamente do processo de aprendizagem e percebem os objetivos de ensino como relevantes para seu desenvolvimento pessoal e profissional. Embora tenhamos nos acostumado a enxergar cursos online como um conjunto de videoaulas disponibilizado para turmas de estudantes, ganhamos a segurança de que é possível realizar o ensino participativo no ambiente digital. No ensino remoto também podemos atingir diferentes objetivos de aprendizagem, voltados para habilidades e atitudes, e implementar variadas metodologias participativas, como debates, role plays, projetos e casos práticos.

2. Valorizar não só a participação, mas o protagonismo dos(as) estudantes

Em meio a atividades assíncronas, achamos relevante valorizar o momento do encontro síncrono por ser um espaço coletivo de construção de conhecimento. Procuramos construir encontros em que estudantes sejam instigados a refletir, pesquisar, desenvolver suas próprias percepções, dialogar uns com os outros e construir possíveis soluções para diferentes questões e desafios trabalhados no curso. Se queremos que os estudantes desenvolvam autonomia, os protagonistas das aulas devem ser eles – e nós, facilitadores desse processo. Afinal, estamos formando pessoas, não apenas técnicos(as).

3. Um bom curso online deve ser bem planejado

O modo como planejamos um programa de curso no ambiente digital e o comunicamos é fundamental para os(as) estudantes se apropriarem do processo de aprendizagem. Ao construir uma boa narrativa sobre o programa, com um fio condutor que promova o encadeamento dos encontros, o(a) estudante estará ciente do que esperar de todas as etapas do curso e de que há uma razão pedagógica para as escolhas realizadas pelo(a) docente.

4. Cuidado com o excesso de atividades

Pode acontecer de usarmos as atividades assíncronas para compensar a falta de contato e de retorno que temos dos(as) estudantes, com a impressão de que se tem mais controle do processo. Porém, é fundamental manter um equilíbrio entre o que pedimos e o que realmente é importante para os objetivos de aprendizagem, para não aumentar o cansaço deles e prejudicar o engajamento. Especialmente no contexto da pandemia, refletir de forma institucional sobre o excesso de carga de trabalho (de docentes e estudantes) se tornou fundamental.

5. Apresentar com clareza a dinâmica do encontro 

É importante explicar quais serão as etapas da aula e como funcionará a dinâmica, pois a maior parte dos(as) estudantes não está acostumada com métodos ativos de ensino, especialmente no ambiente online. Esclarecer o objetivo da aula, a finalidade de cada atividade, o horário de início, intervalos e encerramento, tudo isso traz segurança para que os estudantes consigam focar no momento presente.

6. Começar o encotro propondo uma interação

Iniciar a aula com uma atividade mais leve, seguida de interação dialogada, dará o tom do encontro. Estimular a participação de cada um e explicitar que ela é muito valorizada pode tornar o ambiente virtual mais confortável e convidativo, principalmente para estudantes que são mais tímidos ou não se sentem à vontade no ensino remoto.

7. Aula virtual não significa impessoal nem desumana 

O momento difícil que estamos vivendo tem impactado bastante a saúde mental de todas as pessoas. Criar um ambiente mais humano, em que os erros são vistos como parte relevante do processo de aprendizagem, sem julgamentos ou constrangimentos, pode ajudar no engajamento e aprendizado. Oferecer oportunidades para mostrar que por trás das telas todos, inclusive docentes, estamos enfrentando desafios torna a relação mais horizontal e humana. Precisamos também abrir espaço para reconhecer nossos próprios erros, sendo flexíveis para realizar mudanças no curso a partir do diálogo com os(as) estudantes.

8. Ser inclusivo(a)

Sabemos que as desigualdades sociais são estruturais e não acessórias, e elas perpassam as salas de aula. As condições de acesso à internet, a disponibilidade para participar da aula e o sentimento de pertencimento ao ambiente de ensino podem variar conforme a realidade de cada um. Então, é fundamental realizar as escolhas pedagógicas visando que todas as pessoas se sintam incluídas no curso, considerando, por exemplo, a acessibilidade das ferramentas tecnológicas e a diversidade das referências bibliográficas e exemplos utilizados.

9. Estimular a formação e o fortalecimento de uma comunidade

Conectar os aprendizes unicamente ao conteúdo do curso é muito frágil. Uma vez que eles já não têm mais o espaço do intervalo, da conversa no corredor, de se encontrar no elevador ou algum espaço social para se conhecerem, a formação de uma comunidade é dificultada. Dar espaço para que os estudantes expressem opiniões, falem de si, se conheçam e compartilhem suas realidades faz toda a diferença na criação de conexões e construção de uma comunidade, importantes para se ter um espaço mais acolhedor e prazeroso para a aprendizagem. Criar combinados coletivamente para o fortalecimento dessa comunidade também é uma prática relevante.

10. Fazer pausas e momentos de descanso da tela

O cansaço físico e mental é mais intenso no ambiente online. Realizar pausas faz com que todos possam descansar e voltar mais focados e motivados para a próxima atividade, especialmente em aulas com longos períodos. Recomendamos fazer intervalos de 10 a 15 minutos após aproximadamente 1h30 ou 2h de aula e tentar evitar encontros de mais de 3 horas de duração.

11. "Método Marie Kondo" no ensino online: escolher apenas o essencial 

Aplicativos e atividades de interação são muito divertidos e propiciam um clima mais prazeroso e leve à sala de aula. Mas se trouxermos muita complexidade a esse ambiente, podemos experimentar o efeito inverso e sobrecarregar os estudantes, prejudicando o aprendizado. Portanto, devemos escolher apenas o essencial – menos é mais.

Para contribuir com a construção de um ensino participativo online significativo, reunimos algumas boas práticas no nosso Guia de Ensino Participativo Online, que é gratuito e já está na 2ª edição.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional da FGV.

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